terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A psicossomática das unhas

As unhas das mãos e dos pés desenvolveram-se a partir das garras, ou seja, são resquícios destas, e em consequência têm a ver com nossa herança agressiva e nossa origem. Como deixamos de utilizar as garras diretamente na luta diária pela vida, precisamos apará-las. Antigamente elas se desgastavam, como acontece com os animais de rapina. Quanto a isto, é igualmente uma atitude honesta e uma desilusão observar quem além de nós tem garras no mundo animal; o revestimento agressivo, tanto das unhas como das pessoas, fica claro.
Agora, em uma época que ao mesmo tempo combate a agressão e é extremamente agressiva, não é mais tão fácil manter as unhas perfeitas. Seja por serem atacadas por agentes estranhos tais como fungos ou amputadas de livre e espontânea vontade com os dentes, sobretudo pelas crianças, ou ainda por se tornarem quebradiças e lascarem com facilidade, elas sempre lançam uma luz sobre nossa maneira de lidar com a agressão. Em muitas culturas, seu comprimento é sinal do quanto a pessoa se manteve distante do indigno trabalho braçal diário. Ao mesmo tempo, esse costume deixa claro quanta agressividade é necessária para impor um tal estilo de vida e conservar o poder correspondente. Também entre nós, unhas bem cuidadas são um sinal de trabalho intelectual e de seu trato refinado com a agressividade.

Em nossa cultura, é principalmente o mundo das senhoras que exibe seus símbolos de agressão com orgulho, não poupando gastos em seu cuidado e colocando-os em evidência com cores brilhantes. O esmalte de unhas tornou-se um componente permanente da vida. Excepcionalmente, ele tem a cor da madrepérola, aquele material iridescente no qual diversos seres aquáticos se envolvem, e sinaliza que para seus proprietários a temática agressiva transformou-se em algo cintilante, precioso. O vermelho, escolhido de forma preponderante, é muito apropriado simbolicamente, pois se trata da cor do deus da guerra, Marte, e de sua rival e companheira, Vênus, a deusa do amor. A agressão e o amor unem-se em paixão nas longas unhas pintadas de vermelho, e as garras assim acentuadas sinalizam algo eroticamente sedutor que sempre é criado a partir dessas duas fontes. Não é de surpreender, já que Eros/Amor, o deus do erotismo, é filho de Vênus e Marte. Com as armas de guerra do pai, o arco e a flecha, ele instila o desejo da mãe, o amor, no coração dos homens.

Quando se pensa nas luzes do semáforo e no traseiro dos babuínos, o vermelho é também a clássica cor de aviso, que pode ser vista de longe. Unhas vermelhas chamam a atenção para si, para as qualidades sedutoras de seu proprietário, ou para o sangue que goteja de suas unhas. Finalmente, as unhas têm ainda um caráter saturnino, limitador, já que podem também sinalizar: "Até aqui, não prossiga." 

Inflamação das unhas

Esse sintoma, também chamado de panarício, pode surgir tanto nas unhas das mãos como dos pés. O leito da unha, o espaço onde ela cresce e se alimenta, está inflamado e com pus. A inflamação nessa região encarna um conflito em relação ao lar da agressão, ou seja, da vitalidade. De maneira semelhante ao que acontece na inflamação das gengivas (gengivite), o tema da confiança primordial está sendo aludido. As ferramentas da agressão, garras e dentes, precisam de um fundamento saudável para tornar-se agressivos de acordo com a sua determinação. De maneira análoga, uma pessoa precisa da confiança primordial para poder dar expressão a sua agressão, sua vitalidade e sua energia.

Quando falta autoconfiança às crianças e, sobretudo, confiança nos pais, elas não se atrevem a ser agressivas. Aquilo que externamente parece uma louvável afeição é, muitas vezes, falta de confiança. Quando, ao contrário, elas se atrevem a algo que os pais de forma alguma valorizam, manifestam com isso confiança, pois podem contar com os pais mesmo quando dão vazão à sua agressividade, ou seja, sua vitalidade. Estar permanentemente grudado na barra da saia da mãe, ao contrário, deixa entrever medo e falta de confiança.

Quando o conflito na base da agressão no leito da unha soma-se ainda roer as unhas, a situação torna-se mais clara ainda. A criança não se atreve a agarrar a vida e mostrar as garras. A válvula de escape para a energia vital não é suficiente e a criança, portanto, dirige sua agressividade contra si mesma e castra suas próprias ferramentas de agressão. Em vez de ficarem contentes pelo fato de as crianças não dirigirem suas mordidas contra eles, não é raro que os pais recorram a punições. Na tentativa de tirar o "vício" de seu filho, eles fazem com que o problema da agressão mergulhe ainda mais na sombra. É justamente a sinceridade do sintoma que enfurece os educadores. Agora todos podem ver como seu filho vive de forma contrária à vitalidade.

Algumas crianças levam essa situação tão longe que chegam a roer também as unhas dos pés. O que sua fome de agressão poderia deixar claro? Caso o sintoma perdure até a adolescência ou mesmo até a idade adulta, isso mostra a contínua carência de possibilidades de expressão para a própria vitalidade. Não é raro que o sintoma desapareça para voltar a emergir mais tarde com outra roupagem, por exemplo sob a forma de uma alergia.
Como as unhas freqüentemente são roídas quase até a base, as pontas dos dedos ficam desprotegidas e tendem a inflamar-se. O panarício típico, entretanto, afeta unhas intactas que repentinamente desenvolvem uma tendência para encravar. Elas perfuram a própria carne e, assim, declaram a guerra. Em geral, a situação não é tão crônica como quando se rói as unhas, inflamando-se em um conflito agudo. Ainda assim, há pessoas que sempre voltam a recorrer a este plano de conflitos em torno de sua confiança primordial. 

Além da típica ferida no leito da unha, há outras maneiras que podem chegar até os ossos. Quando o periósteo, os ossos ou os tendões são afetados, a problemática anímica que sai à luz é correspondentemente mais profunda. Os agressores, no sentido físico, são na maioria dos casos estafilococos ou outras bactérias, no quadro de uma assim chamada infecção mista. Enquanto a pessoa se deixa inflamar por esses agentes, os temas propriamente causadores obtêm muito pouco espaço. De fato, uma pessoa que declara guerra a si mesma, ou seja, cujo sistema de armas ofensivas, por dentro e por baixo, está por assim dizer sendo colocado em questão em seu próprio pais, bem, essa pessoa mal poderia defender-se, quanto mais tomar por si mesma a decisão de atacar. A ferida costumeira no leito da unha pode fazer com que esta se solte e, com isso, indicar uma perda na disponibílidade para a defesa.

As garras postas temporariamente fora de combate apontam para a lição a ser aprendida: trazer a própria vitalidade e agressividade de volta para planos conscientes. A guerra em tomo do sistema de armas do corpo deveria ser travada em planos onde as soluções são possíveis. Nesse caso, as armas do espírito têm precedência sobre as armas do corpo. Até mesmo agarrar e arranhar conscientemente tem mais sentido que cultivar ulceras nas unhas. 


Perguntas:

1. Onde deveria mostrar minhas garras e não me atrevo? Onde eu inconscientemente guardo algo sob as unhas?
2. Até que medida meu medo me deixa indefeso diante da agressão?
3. Onde, em sentido figurado, sou vítima de minha agressão?
4. Onde poderia encontrar confiança em minha força e minha vitalidade?
5. Onde há possibilidades significativas para minha disponibilidade agressiva de defesa? Como minha fome poderia ser melhor aplacada?

Fonte: "A Doença como Linguagem da Alma" - Rüdger Dahlke

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